20130318


TEXTO ESCRITO EM 2005 - REEDITADO EM 2013
 
Nas minhas andanças - TERCEIRA IDADE


Nossa! Meses que não tenho escrito minhas andanças, hoje, estou aqui novamente para contar o que tenho sentido nas minhas andanças pela vida. Muito mais de dez anos (matematica nem faz necessário pra denunciar minha idade, risos ) escrevendo minhas andanças. Texto que não tem cunho literário, é o que vivo no meu dia-a-dia e o vai no meu coração e na minh'alma.
Tantas vezes ficamos sob a marquise da vida,  sujeitos a todo tipo de intempéries. Parece que estamos sem teto, sem abrigo, sem nada, sentindo na face rajadas de ventos e o medo como companheiro... 
No ultimo Natal me senti como se tivesse seis anos, sem minha mãe perto, perdida na multidão e olhos medonhos me causando pânico. 
Falarei da minha eterna guereira. Sei que ela onde quer que ela esteja, sabe do amor que sinto.
Dezembro de 2005 minha "mamis" em Curitiba pra retirada do tumor no seio, após quimeoterapia. Internada sem a menor chance de sair viva. Meu coração era menor que o coração d'uma formiga. Passar Natal sem ela, pai e minha irmã, bem como ano novo. 
Me senti tão sozinha no mundo, nem ceia de Natal fiz, preparei algo simples, não me senti com coragem de fazer ceia, seria como se estivesse traindo eles. 
No dia 25 de dezembro fui almoçar na casa de um senhor amigo, ficaria em casa. Foi legal, mas não feliz o almoço de Natal.
Foi justamente nesse almoço que estou aqui, novamente, com mais uma lição de vida que aprendi no dia de Natal.  
O senhor, (vou dar-lhe o nome de  Seu José) têm setenta anos, aparenta cinquenta. Falavamos assuntos diversos, quando ele começou contar como foram seus últimos meses. Seu José está num grupo da melhor idade, está fazendo ginástica, o que mais me encantou foi ele contar que está fazendo curso de computação. Rimos quando ele contou que escreve somente com dois dedos, dizendo ser ele um catador de milho, ele é muito divertido. 
Seu José foi para uma consulta de rotina e a médica perguntou quais eram as atividades dele, ele contou que fazia ginástica em grupo, curso de computação, viagem em grupos ... ( ele, rindo dela ), nos contou e eu não achei a menor graça, achei um absurdo.  Ele:
- Vejam, ela me perguntou para que fazer curso de computação aos setenta anos, se não teria mercado de trabalho, e não seria útil pra mim. Qual meu interesse em usar um computador? Onde estava a satisfação nisso? (- O senhor já está quase morto, porque a expectativa de vida é setenta anos.)
Só faltou ela dizer que morresse, pois, estava com o pé na cova.
Esse lixo de ser humano é MÉDICA?
Ara, agora perguntou eu? Que diabos de curso fez essa médica? Que maldita faculdade formou essa cidadã que se intitula médica? Que bagagem trás de sua família? Que ( de ) formação religiosa tem essa mulher? Queira Deus que ela chegue na idade dele com a vitalidade e vontade de aprender coisas novas, está vivo e feliz. 
Por Deus, senti vergonha de ser mulher naquele momento em que Seu José relatava o comentário da médica. Senti vergonha de pessoas preconceituosas, senti vergonha, muita vergonha de ser humana, pois, creio eu, ser da raça humana como ela. 
Um homem com setenta anos, nasceu e viveu na roça, tudo que aprendeu foi no cabo de uma enxada. Casado veio para a cidade e foi ser frentista de um posto de gasolina, agora aposentado, pode realizar os sonhos mais puros. 
Segundo ele, sempre que via alguém diante de um computador sentia uma vontade tão grande de aprender, mas tinha filhos para alimentar e tantas horas extras, enfrentando as madrugadas frias (abaixo de zero ) diante das bombas de gasolina. Ele sonhava um dia chegar bem perto daquela máquina que o fascinava, sonhava um dia colocar seus dedos num teclado, nem que fosse por instantes. 
Agora, ele todo feliz, alegre, seu sonho era ser um operador de computador, era realidade, e vem um monstro, sim, um monstro, pois, não posso chamar nem de mulher essa médica, e pergunta para que está fazendo computação aos setenta anos. 
Quisera eu, pudesse chegar aos setenta anos com a vitalidade dele, a força e a coragem de querer aprender mais, de realizar velhos sonhos que estavam no fundo da gaveta do seu coração. 
Ele parece um menino, fazendo computação. Uma  coisa tão simples para mim, e para muitos usar um computador, mas para ele era sonho. E sonho não tem tamanho, não tem dimensão. Sonho é sonho, e feliz daquele que realiza um sonho e pode contar com um brilho de alegria no olhar. Que está vivo para poder realizar e se sentir imensamente feliz. 
Saí da casa dele, vim embora e está aqui dentro de mim, ate hoje, latejando o que essa médica fez com ele, ou seja, ela não fez para ele, fez para mim, pois, ele nem se importou com o que ela disse, mas eu me importei e muito, sou mulher e odeio preconceito e preconceituosos. Tenho tantos defeitos, erro sempre, mas não aguento o preconceito. 
Terceira idade, melhor idade, isso não existe, gosto tanto quando o Jô Soares diz que não há primeira, segunda ou terceira idade, há somente duas condições - VIVO OU MORTO.
Chegar aos setentas anos parecendo um menino, isso é uma benção, quantos jovens morreram nesse ano, quantos jovens não tiveram a chance de sequer chegar na tal segunda idade. Quantos da segunda idade partiram querendo ficar só mais um pouco, para quem sabe, sentir o gosto de estar na terceira idade e realizando sonhos. Quantos anos nos resta ainda? E quantos sonhos ainda teremos? E quantos sonhos iremos realizar?
Triste saber que um dinossauro seria mais sutil que essa medica. Um médico mandou meu pai de volta pra casa desacordado, com AVC, esperamos do sábado ate segunda pela manhã, quando o médico do pai chegou dum congresso. Sabemos de médico aqui na cidade que usa cocaína, viciado e atendendo o povo. Que medo eu tenho de péssimos profissionais.
O que faz alguns profissionais da área da saúde se tornarem tão frios, sem coração, sem alma? A universidade tem de por uma grade extra no curso - HUMANIZAR O POVO DA ÁREA DA SAÚDE.
Não vou lamentar mais, mas preciso escrever nas minhas andanças o que me dói e isso tudo me doeu muito. Estou muito sensivel!
Eu, não entendo de primeira, segunda ou terceira idade. Compreendo apenas de seres humanos, de gente, de pessoas...para mim jamais deveria ser divido por fases a nossa idade, deveria sim haver respeito para com uma criança, um adolescente e um adulto, seria assim para mim a divisao das idades. 
Me revolta a falta de sutileza das pessoas, revolta saber que há pessoas que ao abrirem suas bocas, um esgoto seria mais saudável. 
Como diz meu pai, melhor ouvir tanta barbaridade que ter nascido sem poder ouvir nada , e mesmo assim, se nascesse surdo haveria o preconceito por haver a deficiência auditiva. 
Mais um ano finda e creio  ser esta minha ultima andança do ano, que seja um alerta para os dinossauros deste século. Se não podem sorrir que se afastem, se não sabem entender de sonhos que vagueiem em seus mundos bizarros, mas não firam os outros. Se não respeitam nada que encontrem uma ilha deserta e criem seus mundos. 
Termino este ano deixando aqui minha revolta contra as pessoas preconceituosas, seja,  em se tratando de racismo, deficiências, se bem que a deficiência está nos seres preconceituosos. 
Nas minhas andanças registro meus lamentos, vitórias, lutas e minha guerra contra  o preconeito. O mundo precisa de pessoas como Seu José, que aos setenta anos sorri como um menino, que encanta quando relata suas aventuras na academia, nas aulas de computação, quando dá otimas gargalhadas dos erros que comete quando está nas aulas. 
Deixo 2005 para tras nesta ultima andança do ano, registrando minha dor de saber que uma mulher foi fria, desumana e em vez de incentivar, tentou destruir sonhos. Mas também fica comigo, a garra e a vontade de viver feliz, que este Senhor me deixa como lição, para poder iniciar um novo ano, que sonhos sao sonhos, e ninguém pode destruir nossos sonhos e quando sonhado com intensidade, ele se torna a mais doce realidade.
Terceira idade, o que é isso? Tenho comigo e reafirmo, so existem, crianças, adolescentes e adultos.. Que possamos nós seres humanos abrir as cortinas de 2006 com uma nova visão de tudo na vida, que possamos ser feliz e que o preconceito seja algo definitivamente eliminado do mundo.
Marillena Salete Ribeiro
Em: 28 de dezembro de 2005
Videira - Santa Catarina

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