20130318


RELENDO MINHAS ANDANÇAS - O MEU DIÁRIO - março/2013
 

Nas minhas andanças....por mais que o tempo passe nada se apaga ( estou em 2005)


Tinha que começar meu diário com lembranças...e lá vem o passado todo assanhando, abrindo a janela do tempo e jogando-em dentro desse tempo que não voltará mais, mas que há lembranças e saudade.
Há uma melodia saudosista em meu coração agora. Houve momentos que o chão sumiu sob meus pés, afundei no baú de lembranças e voltei na época em que era adolescente, como se estivesse de corpo presente.
Os ares passam, passam chuvas e tempestades, passam anos e uma vida vivida, e as coisas que marcam nossa vida, vezes vem á tona um sorriso de saudades como por encanto...
A vida é como uma bela canção, pode passar os anos que passarem, mas as notas d'uma canção fica. As coisas boas da vida sempre ficam como melodias, e um dia ao ouvi-la novamente volta recheada de lembranças e encantar nossa vida. Vindo fundir eternos momentos com a nossa realidade. De tudo na vida, fica sempre um momento gravado na memória, fica naquela caixinha fechada com laços e fitas. Raramente desatamos o laço e raramente abrimos, mas sabemos do conteúdo. O que nos perturba é quando alguém puxa a ponta da fita, desmancha o laço, abre nossa caixinha de recordações e nos joga dentro do passado, onde, os mais doces momentos foram vividos vividos.
 Há coisas delicadas em nossa vida que ficam guardadas para sempre, um som delicado, um sorriso, um abraço,  o primeiro e tímido beijo, o primeiro namorado. A vida vai seguindo contando e escrevendo nossa historia. O que realmente importa vai para dentro da caixinha de boas recordações, demais o tempo se encarrega de apagar.
 A vida deveria ser sempre de alegria, de sorrisos. Deveríamos eternizar coisas boas e ter a paz que tanto buscamos.
Ontem enviei uma mensagem onde o assunto foi sobre "almas gêmeas".
Então, voltando no tempo, o meu primeiro namorado, aquele do primeiro beijo, do primeiro cheiro de homem próximo (claro que somente o cheiro do pescoço, pois na época sexo, credo nem pensar e me casei virgem alguns anos apos ).
Era uma época que havia alegria apenas de viver. Um tempo bom de ser vivido, pois havia mais inocência, mas respeito, mas romantismo no ar.
Adolescente e inocente, diria que era tola a tal inocência, mas muito bom viver sem medo e segura nos ensinamentos que recebíamos em casa.
Nas minhas andanças de hoje, primeira de 2005, aqui no meu diário registro um momento constrangedor que passei.
Chegaram na lancheria um grupo de jovens e dentre um homem careca com feições familiares, a sensação foi que aquela face já tinha vivido na minha vida, me era muito familiar aquele homem careca. Ele chegou acompanhado d'uma namoradinha, pois, a diferença de idade era um tanto quanto grande, diria que poderia ser a filha dele (sem maldade, apenas analisando). Ele com quarenta e oito anos e ela com vinte anos. O grupo acomodou-se e pediram cervejas, lanches, refrigerantes, sucos, porções e coisas mais. Mas o que me incomodava é que aquele homem me olhava de maneira insistente, e acompanhado da garota, fiquei muito sem graça, mas muio sem graça. Eu estava no caixa e sempre observando o salão. Um dado momento ele levantou aproximou-se do balcão onde eu estava e perguntou-me:
- Você é Marilena?
-Sim, sou eu, e o Senhor?
Ele riu do senhor....e
- Senhor? Não posso crer que pra voce eu me tornei um senhor. Não lembra mais de mim?
Perdoe-me, sei que é familiar sua face mas nao lembro...sua voz está gravada na minha memória, mas...
E com um sorriso cheio de ferragens (o tal aparelho nos dentes) ele disse:
-Lembra da nossa formatura (na época era segundo grau)? Dancei com você, vestia um vestido salmão e te beijei muito naquele baile. Eu era apaixonado por voce, namoramos...como pode me esquecer?
Meu coração bateu no céu da boca, dando chicotadas na minha lingua, fiquei tão incomodada que derrubei tudo que tinha nas mãos. Que estranho o nervosismo que senti diante daquele homem, e o que me deixa profundamente irritada agora é que, nao consegui disfarçar o nervosismo do momento.
Hoje, ele tão diferente do meu primeiro amor, do primeiro homem que me beijou, da primeira paixão.
Então me pergunto: O que me perturbou tanto? Perdi a concentração no que estava fazendo. E ele percebendo meu nervosismo disse sutilmente e educadamente  que o tempo passou, mas que ele nao esquecia nada das coisas boas que lhe acontecera. Falei muito pouco, foi tão estranho a sensação que senti naquele momento. Não entendo o que pode ter me deixado tão perturbada, tudo que pegava derrubava, outro cliente veio acertar a conta, nao consegui fechar a conta e pedi ajuda. Nossa! Como é estranho alguém vasculhar nosso baú, sair e deixar tudo espalhado pra gente ir arrumando e chorando u sorrindo por todos os detalhes novamente onde estavam.
Agora escrevendo em meu diário, imagens pipocam na minha memória, como fotografias amareladas pelo tempo e as recordações daquela época, que tempo lindo vivido! Um tempo sem preocupações, sem dores, sem tristezas, era tão somente de sonhos e nada mais. Não havia um sinal que eu sofreria tanto, durante a vida que estava a minha espera.
Instalou-se dentro de mim uma paz tão grande, pois, o que há agora, são lembranças d'uma vida linda e de ótimas recordações.
Ontem mesmo encontrei um rapaz que foi nosso funcionário, recepcionista do nosso hotel a muitos anos, ele contando-me que separou e casou-se novamente e tem uma filha de oito anos com a atual, na época conheci seus dois filhos do primeiro casamento, ele falou da ex mulher com certo arrependimento de ter separado dela. Falou com saudade e amargura dela. O mundo gira e o passado de tempos em tempo volta remexer tudo dentro de nós, no presente. Dizem que devemos esquecer o passado, mas não tem como, pois, quando está esquecido vem alguém, nos desperta e somos jogados dentro da nossa caixinha de recordações, ficando algo no ar sem explicação.
Durante muitos anos briquei que o fato de eu ter casado virgem com Nelso, a culpa era do meu primeiro namorado riamos. Que ele tinha uma dívida comigo do tal fazer amor.
Hoje, levei um mega susto diante dele. Meu primeiro amor veio mexer e remexer no meu passado. O sorriso dele é o mesmo, a tranquilidade no falar, ele fala pausadamente e mansamente ainda, é muito sereno, nao mudou o jeito tranqüilo e doce de ser, é terno e sorri ainda com os olhos... Pode tudo ter mudado na vida dele, perdido os cabelos, mas  permanece a serenidade que um dia conheci e me fez apaixonar perdidamente por ele. O namoro acabou por bobagem e ele lembrando o motivo tolo.
Ele passou parte noite com os amigos e namorada, vez em quando nossos olhos se cruzavam e ele sorria pra mim. Aquele velho sorriso, tão doce, foi me deixando tão perturbada, vim para casa sem entender o que me perturbava. Poxa vida, ele era passado, havia ate teia de aranha nessa história, com um passe mágica tudo fico azul e rosa.
Voltei trabalhar e ele veio novamente ao balcão falar comigo. Perguntou quantos filhos eu tinha, falei que um só e que já era avó, ele sorriu e disse que ainda não era vovó, os meninos dele nem pensam. Falou que trabalhava ainda na Celesc (Centrais Elétricas de Santa Catarina). Ele entrou na empresa quando começamos namorar e faz anos, muitos anos. Trabalha aposentado na empresa.
E assim, aqui estou eu, diante do meu passado mais uma vez e que não me venham com aquelas frases tolas como: Quem vive de passado é museu.
O meu passado foi minha vida vivida, se um esquece,  um outro alguém vem e refresca a memória.
De tudo, o que mais me intriga é como pude ficar tão perturbada diante dele, ele todo alegre diante de mim, como se fosse a coisa mais natural mexer no meu passado. Sem muito sorrir, mas respondendo a tudo, querendo que uma parede se formasse na nossa frente. 
Será justo o que senti?
Que motivos me deixariam tão perturbada diante dele?
Claro que foi o homem que me fez descobrir o amor, que senti o gosto bom do primeiro beijo, e sem contar que estudamos na mesma sala por anos seguidos.
Ah! Não sei que houve comigo hoje!
Não consigo entender mais nada, o que poderia ser uma conversa normal e alegre, não foi não, pela minha inquietude.
Que fez esse homem comigo? Que me fez perder o rumo da vida por alguns minutos e nao me fez querer cantar. Fiquei assustada. Não pensei em dançar ao vento, nem saltitar de alegria, nem foi tristeza, foi susto.
Acho que fiquei com medo do tempo em mim, dos estragos feito. Apenas veio uma doce recordação da fase em que minha pele ainda era acetinada, não havia marcas do tempo, minhas curvas eram perfeitas, ao redor dos olhos, as ruguinhas nem de longe se assanhavam, e eu nem sabia de sofrimentos, não sabia das dores que a vida causa e nem das lagrimas que derramei.
Houve sim a brevidade d'uma existência doce e terna de descobertas, de sonhos por sonhos.
E sendo assim, nosso passado não mais existirá quando não respirar mais, ou quando nenhuma chuva cair, o sol não nascer. Quando não houver mais as fases da lua e nenhuma alegria restar. O passado morrerá quando ninguém mais sorrir, o amor se transformar em vazio e a paz deixar de ser vivida. A esperança for algo desconhecido, o passado então morre e tudo mais que estiver vivo também morrerá.
Na capa do meu diário  está escrito "Nas minhas andanças". As letras, frases que discorrem pelo meu diário é como uma canção que tagem livres, sem medo de compor o que sinto.
 Hoje, minha primeira andança após muito tempo sem abrir meu diário. registro um momento de desconforto para meu coração, onde, ate agora não entendi minha reação. Será que ao vê-lo com seus raros cabelos brancos, mais envelhecido, eu não quis me ver também depois de tantos anos? Será que senti medo de envelhecer? Com quarenta e poucos anos, sou mais moça que ele, não muito.
Será o homem do primeiro amor, aquele amor de adolescente, de descoberta, deveria ter ficado lá no passado sem eu saber nunca mais dele?
Hoje, estou madura com todas as marcas que o tempo pode deixar em nosso corpo, não há a rigidez na pele, que um dia foi lisa e firme, mas há sim maturidade, aprendizado, coleções de grandes lições de vida, sendo elas de dores e de alegrias.
Não sei que imagem ele levou de mim, mas ficou aqui a imagem d'um homem maduro, não é mais aquele garoto que me beijava apaixonado. Que andavamos correndo na chuva feito dois bobos. Que riamos de bobagens.
Por mais que o tempo passe, o que um dia vivemos não há nada no mundo que apague, a não ser a morte e mesmo assim tenho duvidas se cairá no esquecimento.
Procuramos é esquecer o passado de sofrimentos, de dores e lamentos. Temos a obrigaçõ de viver o presente e esperar o futuro, mesmo que muitos não pensem assim.
Eu, descobri que o passado vem á tona sempre, mesmo fugindo e escondendo-se dele atrás da cortina. Encenamos inúmeros atos, mas é na coxia que a vida real acontece.
Nossa busca é sempre a felicidade, não sabemos em que momento a encontraremos, mas a busca é constante.
Entre o desconforto  e a realidade, fiquei feliz em te-lo encontrado, e remexer no meu baúzinho de recordações e saber que ele me fez muito feliz.
Então, abro o meu diário em 2005, registrando meu momento de desconforto diante da vida e foi rasgado o véu que cobria minha caixinha de recordações...agora, vou fazer novamente o laço, fecha-la e guarda-la, não sei quando e nem quem será o próximo a desamarrar a fita e remexer novamente na minha caixinha secreta.
Descobri finalmente que nada apaga o passado, que viver de passado é impossível, mas que é possível revirarem nosso passado e nos perturbar muito sem sentir dor.
Que seja possível estarmos juntos em minhas andanças por muito e muito tempo. E como todos sabem, quando escrevo meu diário não faço correções ortográficas. Apenas dividido minha vida com voces todos que são amigas e amigos por anos e anos.

Marillena Salete Ribeiro
Videira-Sc


Este texto encontra-se protegido pela Lei Brasileira nº 9.610,de 1998, por leis e tratados internacionais. Direitos autorais

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