20130319


Nas minhas andanças - ENTÃO É MODERNIDADE!


Como todos sabem, minhas andanças é o meu diario aberto.
Olhando meus velhos e bolorentos escritos vieram lembranças de outros tempos, outro natais. 
Quando eu era criança o Natal tinha um sentido muito especial. Não era Natal de presentes, era algo especial que ate hoje não sei explicar. Havia uma emoção indicritível. Nosso coração infantil batia acelerando esperando Papai Noel.
Como meu pai sempre foi operário e não ganhava muito, não ganhávamos brinquedo, mas sim roupinhas novas de presente. Nossa era tão simples, mas tinha um cheiro de limpeza, também de limpeza no chão, moveis e roupas. O cheiro de limpeza era o amor que existia entre nós, o respeito por nossos pais. Minha mãe severa, matriarca. Meu pai um homem bom, terno, justo e amoroso. Sempre foi o meu melhor amigo o meu pai.
Lembro-me que quando ganhávamos algo eram sempre roupas novas, nada de brinquedos. 
Éramos muito criativos, criávamos nossos próprios brinquedos e éramos mais felizes. Não sei explicar como, mas éramos felizes dentro daquela pobreza que viviamos. Nunca faltou pão, feijão, arroz, algo de mistura (como dizia minha mãe, que era carne de frango criados no quintal, vare de gado, porco, frutas e verduras). Na horta havia hortaliças diversas, laranjeiras e limoeiros (ainda há no quintal de minha casa as arvores). 
Quando ganhei minha primeira boneca já era grande, creio que tinha uns oito anos, que felicidade! Antes dessa boneca eu fazia as minhas de panos, com um sabugo de milho, a carinha dela, seus olhinhos e boquinha feito com carvão. Meu irmão criava os carrinhos dele com madeira. Minha mãe sempre nos manteve dentro de casa, os filhos dela jamais brincaram na rua longe dos seus olhos.
Então, vem á minha mente algo que não entendo, hoje, nada satisfaz as nossas amadas crianças, deve ser o avanço tecnológico. Criamos crianças insaciaveis, insatisfeita, nada preenche, querem tudo e não brincam com nada. 
Nós, as crianças antigas e criativas ficamos hoje sem saber o que dar para nossos filhos e netos, pois, é raro agradar e ver o brilho em seus olhinhos, o mesmo que havia em nossos olhos de criança. 
Minhas reflexões não são sobre esquecimentos dos sonhos de minha infância. São momentos que permanecerão para sempre. Os ecos da alegria que havia ainda existem em mim. 
Lembro-me que durante toda minha infância, minha mãe vestia os seus três filhotinhos no dia de Natal, e na matiné da tarde do dia de Natal,  nos deixava na porta do cinema com os bilhetes nas mãos... Entravamos os tres no cinema de mãos dadas. Era sempre a história de Jesus! Eu sai do cinema desfigurada de tanto chorar. 
Foram anos que assistimos os mais lindos filmes contando a vida de Jesus nas matines do dia de natal. 
Meu filho se chama Thiago, pois, trago desde a infância a imagem do Apostolo Thiago. 
Uma vez por ano íamos ao cinema para ver Jesus! Era tudo tão real. Minha mãe não entrava, não dava o dinheiro para todos ir ao cinema. É uma cena que não se apaga da minha memória, nós três de mãos dadas entrando e sentando juntos. Eu no meio, era a mais velha, minha irmã de um lado e meu irmão do outro. 
Conta minha mãe  que eu era a única que saia do cinema com a face deformada de tanto chorar diante das brutalidades cometidas para com Jesus. Até hoje, choro sentida vendo filmes. 
Os ensinamentos que recebi na minha infância fazem ecos no meu coração. Não posso esquecer uma fase mística e linda dos meus natais infantis. Não era comercial, era mais humano, mais festivo, mais comemorativo quanto à data, o nascimento de Jesus. 
Já tínhamos televisão (quando eu tinha doze anos), minha mãe ganhou uma telefunkem de uma patroa onde era empregada doméstica...Mas toda tarde havia uma novela no radio e eu chorava... A novela de radio despertava nossa imaginação, criavam cenários em nossas mentes...E eu chorava muito, chorona que só eu. 
Havia mais ternura nos abraços de feliz Natal, havia mais fraternidade e mais amor. Todos da família de minha mãe se reuniam em nossa casa, era uma festa tão linda, cada um trazia um prato, um pedaço de carne para o churrasco e todos era felizes. Desse tempo ficaram pegadas ternas em meu coração. 
Viajei sozinha para uma época que nunca mais vai existir. 
Há uma certa aflição em saber que os jovens de hoje, nunca saberão de verdade o sentido dos Natais que foram os da minha infância. Meu filho não saberá. Meus netos jamais saberão. Eles são frutos dos natais comerciais, brinquedos importados e caros. 
Para meu filho, por mais que eu  tentasse passar a imagem dos meus Natais para ele, nem de longe ele iria entender-me. 
Uma das coisas que mais me fascinava era entrar na Igreja e ver as Irmãs  do Colégio Imaculada Conceição vestidas de preto e de branco, não víamos suas mãos, apenas a face e eram angelicais...Pareciam santas! Nem hoje se vê mais as freiras vestidas assim, estão a paisano, são comuns como nós. 
Quisera confortar meu coração e fazer de alguma forma que os jovens como meu filho vissem  o Natal como um dia especial e que cada Natal fosse lembrado como lembro dos meus. 
Ah! Lembro também que na ceia de Natal todos davam as mãos, fazíamos um circulo e sempre alguém falava algo lindo para Jesus como agradecimento. 
Que houve com nossos corações?
 Afinal não estou velha assim para ter lembranças tão longe, parece que era outra vida o que ficou em minha memória dos meus natais. Hoje ficou um vazio, a ternura do dia santo ausente e vida mais comercial. 
Se pudessem ouvir meu coração ouviriam um lamento triste e saudoso de uma infância de natais cheio de ternura e muito especiais. E minha alma sai de mim querendo o retorno da paz e da fraternidade dos meus infantis natais.
Um impulso me puxa para este momento, uma lagrima atrevida veio brindar meu momento com ternas recordações de dias felizes que nunca mais serão iguais e jamais serão Natais mágicos como foram. 
Descobri que a magia dos Natais se perdeu depois que cresci, que casei. Aos poucos foram ficando diferentes cada ano. Minha irmã ano passado comentou:
- Mari, nem parece Natal, né mesmo? Que estranho!
Não sei quanto aos meus irmãos, ou seja, minha irmã e irmão, mas eu gosto de viajar no meu baú de recordações, acho tantas coisas lindas lá. Gosto de relembrar a magia que foi ser criança, dos momentos mágicos da nossa infância, da saída do cinema no dia de Natal e eu chorando de tristeza ao ver Jesus sofrer tanto. Das bolachas caseiras que minha mãe fazia e pintava (ela pintava as bolachas só para o dia de Natal), durante o ano ela fazia as bolachas, mas não pintava, para não perder o encanto do Natal. 
Alguma coisa se perdeu no meio do caminho, há uma insatisfação geral, nada contenta, nada alegra a vida dos nossos jovens. Vezes depressivos, tristes e infelizes... Muitos suicidios entre jovens, vidas perdidas em drogas, porque eles não encontram mais sentido em nada. Fruto de crianças sem limites, sem uma vida normal.
Quando sei dos jovens tristes, lembro da minha infância pobre,  mais recheada de fé, crenças e ternura. 
Quando vejo os quartos dos bebes decorados com monstros (coisas da modernidade, desenhos animados, modismos) fico triste, no meu quarto e de minha irmã não havia armários, eram prateleiras feito de tábuas e uma cortina para não entrar pó nas nossas roupas, mas havia no quarto um quadro com um anjo da guarda guiando duas crianças... Não tinha como não saber que tínhamos um anjo.
Claro que depois, adolescente, junto com nosso anjo de toda infância.
Foi pra minha parede o meu ídolo, meu primeiro amor virtual,  Rivelino, da nossa seleção brasileira (sim, aquele moço de bigode). O primeiro homem que amei como homem mesmo foi meu ídolo Rivelino, tinha um pôster dele imenso ao lado de minha cama e quantas declarações de amor ele ouviu. Fiz poesias, poemas, cartas e ele sempre me olhando do pôster. 
Deixei  Rivelino no dia que me casei e ainda assim, antes de ir para a Igreja,  vestida de noiva. Fui ate meu quarto e o beijei pela ultima vez, sabendo que minha irmã iria tira-lo da parede,  assim que a festa do meu casamento acabasse e assim foi. 
Então, de tudo na vida que passei havia magia, encantamento, ternura e paz.
Nas minhas andanças, no meu diario aqui registro uma saudade imensa dos Natais de minha infância e adolescência.

Marillena Salete Ribeiro
Videira, 11 de novembro de 2004.


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