20130318


Nas minhas andanças - Sentindo na pele



Quem sabe até eu esteja errada, mas tenho muito cuidado com as necessidades dos outros. Fico profundamente triste com suas dores. Quisera fosse possível esticar o braço e aliviar de alguma forma. De algum jeito sou prestativa, não quer dizer que posso ir comprando uma roupa digna para ter um altar. Sou um ser que erra todos os dias, que chora, que acerta, que dá certo, que fracassa, que lamenta, que resmunga, que briga com injustiças, que grita com o mundo, enfim, sou um ser (acho) normal.
O que posso dizer é que tento aliviar o fardo de dor dos meus amigos, parentes e até desconhecidos. Sou grata a Deus por ter saúde e hoje viver em paz, lutando arduamente, mas em paz, e claro que há dias cinzas, outros com raios, trovões e ventanias. Como diz o grande citador (risos) Bambam " Faz parte".
Para os amigos "da velha guarda" que estão acostumados com minhas andanças, sabem que aqui é o meu diário, um diário aberto para que meus velhos e novos amigos possam ler o que se passa com minha alma e minha vida. 
Não faço correções no texto, apenas vou relatando meus sentimentos. Perdoe-me as aberrações ou cacografias.
Sentindo na pele é revelar os piores momentos que já tive em minha vida, vou relatar aqui algo que não gosto e quem sabe a partir daqui ate o final todo meu FEL esteja presente, então, vou falar de algo que me dá náuseas...
Videira é linda! Uma cidadezinha no meio oeste de Santa Catarina, mas infelizmente foi colonizada por italianos e quem não é mezenga e nem berdinazzi é sub-raça, é brasileiro ( ser brasileiro aqui é sub raça ). Como meu pedigree é vira-lata, sou sub raça aqui. 
Tenho uma avó italiana Cristina Botini, um Avô português, outro espanhol, uma bisavó alemã, e quem sabe alguém colocou seu pezinho na senzala e foi muito feliz. 
Há um misto de raça na minha família que não sei definir, ou seja defino sim, sou vira-lata mesmo. Minha pele é branca, com olhos ligeiramente verdes. Minha mãe tem os olhos cinza-azulado e minha irmã também. Mas, para o povinho abestado daqui, eu sou sub-raça. Ou seja, como sou branca até que aceitam com certa reserva.
Houve um dia que minha irmã encontrou uma velha conhecida, descendente de quinta mesmo, ou mais gerações de italianos e disse a ela:
- Apesar de tua mãe ser "brasileira" eu gostava dela.
Fico com nó na garganta de tanto nojo que sinto do preconceito. 
Essa senhora nasceu aqui, sim, aqui em Videira, no estado de Santa Catarina e no BRASIL....
Que diabos tem esse povo de se acharem superiores? Que diabos tem esse povinho de se achar uma raça especial? São ruins, e sei do que falo, são perversos, gananciosos, e se puderem arrancar os olhos de um irmão. Arrancam só para ficar com a herança dos pais. Já  vi tantos horrores cometidos pela tal raça especial que tenho nojo de lembrar. 
Aqui muitos irmãos não dão nada que sobra, é na base da troca...ou venda. Como se fossem ficar miseráveis dando o excedente. Os melhores anos da minha vida vivi em São Paulo, longe do preconceito. 
Lembro-me de uma parenta do meu ex marido, qual eu gostava muito dela. No seu leito de morte, dentro do hospital, quando entrei no quarto, havia dois dos seus filhos um em cada lado da cama brigando pela aliança de casamento da mãe. Ela desacordada, ainda estava viva, ainda consciente e eles se comendo vivos pela ganância. Pedi que eles saíssem do quarto, segurei a mão dela e perguntei se ela sentia dores, ela apertou minha mão...ela estava ouvindo os absurdos dos filhos. Pedi se ela queria que rezasse com ela. Novamente apertou minha mão, rezamos juntas, ela em silêncio e eu em voz alta.
Lembro-me também que quando fiquei noiva, a família do noivo fez uma reunião para impedir que ele se casasse comigo, pois eu iria sujar o nome da família, sendo que sou brasileira, aquela sub-raça... e minha mãe era espirita. Dois agravantes. Foi uma pena eu ter descoberto somente depois que me casei da tal reunião. O que me dói é ver nos domingos os "italianos" não perderem uma missa. Que diabos faz na igreja esse bando de sujos de alma? Será que pedem perdão para Deus na hora da missa? Pois, na porta da igreja, na saída já estão cometendo os piores absurdos. 
Quando retornei para Videira, ao lado de minha casa havia uma viúva, uma das mulheres mais perversas que já vi em toda minha vida, racista, claro italianissima nascida no Brasil (não fosse podre seria cômico)...certo dia ela falando de racismo e encheu a boca para dizer-se italiana, então perguntei que cidade e estado da Itália ela havia nascido ( sabendo que é de umas dez gerações aqui)...ela ficou sem graça e disse-me que ela nasceu aqui, então disse-lhe:
- Ué, mas acabou de cometer um crime bárbaro, preconceito e com desprezo aquela pessoa e se diz italiana. Moça você está na porta do inferno com este teu racismo sujo, se olhe bem no espelho e tente ver que podre é tua alma, o diabo é italiano, está te esperando...
PQP perco o rumo da vida com preconceito, sofri na escola, sofri na igreja, sofri pra ficar noiva, sofri pra casar... 
Pra mim gente dessa laia não me serve. 
Pior é que na minha família ( eu, minha irmã e meu irmão) tivemos a infelicidade de casarmos todos com os racistas, os italianos que nasceram no Brasil. 
O sogro de alguém que conheço, cada vez que ela ia na casa do noivo, o sogro ficava com a bíblia nas mãos para defender-se da sub-raça. 
Não diferente o meu irmão quanto ao preconeito... Mas Deus é tão justo que coloca lágrimas nos olhos dos racistas. 
Somos e seremos os eternos brancos sem raças, só porque que não somos mezengas e nem berdinazzi. Aqui, ser Ribeiro como eu, Silva, Gonçalves, Oliveira, Pereira e outros assim, sub-raças mesmo. 
Ah! Se eu tiver a graça de voltar para este mundo mais uma vez, quero vir como negra, cheirosa, faceira, alegre, com samba no pe e na face maravilhosas gargalhadas e provocativa...
Acontece que fui morar em São Paulo, saí do antro podre de alguns dos italianos racista e acreditando que em são Paulo, outro meio, cidade grande,  não sentiria na pele a burrice humana, (perdoe-me os paulistanos do bem) senti sim, não por mim, senti pelos nordestinos... basta assistir nos programas de domingo "voltando pra minha terra". Eu senti na pele duas vezes o preconceito.
Então, de coração me tornei uma nordestina que nasceu em Santa Catarina...amei cada nordestino que conheci, aprendi tanto com eles. Eles são amorosos, amigos de verdade, sem falcidade.
Umas das coisas que mais me irritava era ouvir quando algo errado era cometido:
- È coisa de baiano! OU - Mó baiano isso!
Senti na pele um povo lindo ser maltratado só por que são nordestinos. Amarguei um fel na boca ver pessoas trajando seus ternos e humilharem os nordestinos. Eu vi! Ninguém  me contou, eu morei lá. Tornei-me uma nordestina de alma e coração, afinal era forasteira la como eles.
Então me pergunto, ou pergunto para quem queira me responder
- Onde sou ou somos melhores? Onde alguém pode ser melhor que eu ou você?
 Se eu comer feijão, arroz e ovo frito e os bons também, ao sentarem no trono suas fezes serão perfumadas, com cheiro de perfume francês? Perdoe-me o termo, mas quando vou cagar,  fede e muito, e os bons e racistas não fedem??? 
Sou um ser normal, tenho minhas crises de ira sim, e falar de racismo fico com o estômago embrulhado, tamanho nojo que tenho dos tais seres superiores, os racistas. 
Hitler era alemão (austriaco?), branco feito bicho de goiaba e foi o maior assassino da humanidade. Mussolini, outro assassino, ditador italiano, aliando-se á Alemanha nazista, formando assim o eixo Roma-Berlin e caçaram os judeus (onde Mussolini criou leis contra os judeus) com sede de sangue. 
Hoje, mais modernos há os ditadores assassinos... A diferença somente de eras, armas nucleares, num mundo globalizado não há a era da espada, e hoje é a era da caneta de ouro. A era da guerra viral, enfim. 
Há também alguns médicos racistas, que deixam seres humanos morrerem pela falta de ética e respeito para com seu juramento. Não me refiro a cor da pele e nem descendência neste caso, refiro ao poder aquisitivo mesmo...Se tenho dinheiro curam câncer, e outras mais doenças, se não tenho aprodreço em vida ate a morte. 
Como disse, hoje minhas andanças tem fel do inicio ao fim, pois não suporto a crueldade humana, a falta de amor ao próximo, falta de respeito e solidariedade para com nossos irmãos. 
Diante dos olhos de Deus somos iguais, para Deus não temos cor de pele, nem posição social, ter fé e caridade é tudo de bom. Ter nossas almas livres dessas barbáries que sofri na pele. 
Mas, os bons...certamente sopitarão nos braços do demônio e o calor que receberão são as chamas do inferno.
 O que me conforta um pouco é crer que aqui se faz e aqui se paga...o inferno é aqui mesmo e de alguma forma esses seres perversos terão em seus dias de vida o que merecem, por humilharem seres que podem um dia ser seu socorro. Vivem num mundo umbroso e não elvolui espiritualmente, não há bondade, se acham superiores. 
De tudo, o que me conforta mesmo e retornando para Videira, foi sentir que as novas gerações são mais leves e livres desses preconceitos todos. São jovens mais polidos e mais humanos, estão ficando longe do bolor de seus avós e pais,  e estão criando um novo mundo e mais humano. Quisera saber que em São Paulo, qual amo perdidamente, os jovens tivessem mais respeito pelos nordestinos e que aprendessem com eles coisas maravilhosas que aprendi em tantos anos de convívio, e que o coração do jovem paulistano fosse como o meu, meu coração é nordestino...também é verde-amarelo, sou brasileira, nasci aqui, pouco me importa de onde imigraram meus antepassados, o que importa é que sou sim brasileira. 
O amor é uma das maiores necessidades de nós seres humanos, não estamos imunes de tragédias e não sabemos de onde e de quem será a mão amiga para nosso socorro na hora que tombarmos. 
Nasci no vale do Rio do Peixe e passei minha juventude sendo perseguida pelos descendentes de italianos que aqui viviam, fui embora e sentindo na pele a dor, revoltei ao sentir o que os nordestinos também em São Paulo. 
Ah meu Deus! Ah meu Deus! Que criaturas são essas que podem humilhar seres humanos? Humilham somente para sentir na boca suja  o sabor de se sentir superior. Esquecendo de todas as coisas delicadas criadas por Deus e enviadas para TODOS OS SERES HUMANOS DA TERRA. 
Passei anos escondendo meu sobrenome, e quando dizia tinha receio da reação dos seres superiores. Hoje, eu digo de boca bem aberta, eu sou RIBEIRO com muito orgulho. E meu Ribeiro quando digo é um som agradável e estou livre dos medos e da insegurança que já senti nesta terra. Vou lutar com unhas e dentes enquanto viver para que todos sejam respeitados pelas suas raças, suas digitais, crenças e tudo mais que diga respeito a vida de cada um ser de bem, que seja um ato de liberdade. 
É uma vergonha ter que se criar uma lei para que haja respeito com a raça negra, lei do racismo. A lei deveria ser criada dentro de cada família, e os pais que fossem formadores de filhos com caráter e respeito por todos indistintamente. O que deveria prevalecer é a lei do respeito e o curso da vida fosse viver em paz. 
Ajustar a uma nova mentalidade aqueles velhos racistas  é impossível, mas pode-se ajustar os jovens para uma nova vida e sem preconceitos. Nunca saberemos do nosso amanhã. 
Que sejam enterrados para sempre os antepassados e seus ranços. Que seja plantado no coração das novas gerações a flor da paz e de respeito. Que fique em nossa memória que a vida é passageira e que iremos morrer cedo ou tarde e onde nossa alma habitará, só saberemos mediante nossas atitudes. Que todas as máscaras sejam retiradas e de cara limpa possamos abrir a janela da vida e olhar nossos semelhantes como irmãos. Que não haja piedade, mas que haja amor nos corações. Não desperdicem seu tempo com coisas pequenas como o preconceito. Devemos permitir que a luz de Deus entre em nossas almas e a escuridão seja eliminada para sempre. 
Nas minhas andanças, meu diario, hoje estou num lamento ardido falando das coisas que senti na pele, uma das piores coisas cometidas que é o preconceito. 
Repousarei minha alma e meu coração na palma da mão de Deus, sabendo que ninguém mais pode me ferir como já feriram e alertando meus irmãos que sofrem qualquer preconceito, que gritem, berrem, briguem, mas não permitam que seres podres os humilhem como já me humilharam, tanto a mim quanto aos meus dois irmãos e meus pais. Mandem para o inferno os tais superiores racistas e sejam felizes como aprendi ser. É tempo de ser feliz e serei sempre feliz, pois ninguém nunca mais vai pisar na minha dignidade como já pisaram um dia.
Perdoe-me as palavras grosseiras que ditei aqui meu diário, mas coisas assim me tiram da normalidade e despejo, ou vomito toda minha ira contra os racistas e  preconceituosos.
OBSERVAÇÃO: NÃO ME REFIRO AO POVO INTEIRO DUMA CIDADE, MAS SIM OS RACISTA QUE ME CAUSARAM NOJO PELO QUE SOFRI E PELO PRECONCEITO... HÁ MUITA GENTE LEGAL QUE PASSOU PELA MINHA VIDA E AINDA MORAM AQUI.

Marillena Salete Ribeiro

Este texto encontra-se protegido pela Lei Brasileira nº 9.610,de 1998, por leis e tratados internacionais. Direitos autorais

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