Nas minhas andanças - Sentindo na pele
Quem sabe até eu esteja
errada, mas tenho muito cuidado com as necessidades dos outros. Fico
profundamente triste com suas dores. Quisera fosse possível esticar o braço e
aliviar de alguma forma. De algum jeito sou prestativa, não quer dizer que posso
ir comprando uma roupa digna para ter um altar. Sou um ser que erra todos os
dias, que chora, que acerta, que dá certo, que fracassa, que lamenta, que
resmunga, que briga com injustiças, que grita com o mundo, enfim, sou um ser
(acho) normal.
O que posso dizer é que tento aliviar o fardo de dor dos meus
amigos, parentes e até desconhecidos. Sou grata a Deus por ter saúde e hoje
viver em paz, lutando arduamente, mas em paz, e claro que há dias cinzas, outros
com raios, trovões e ventanias. Como diz o grande citador (risos) Bambam " Faz
parte".
Para os amigos "da velha guarda" que estão acostumados com minhas
andanças, sabem que aqui é o meu diário, um diário aberto para que meus velhos e
novos amigos possam ler o que se passa com minha alma e minha vida.
Não faço
correções no texto, apenas vou relatando meus sentimentos. Perdoe-me as
aberrações ou cacografias.
Sentindo na pele é revelar os piores momentos que
já tive em minha vida, vou relatar aqui algo que não gosto e quem sabe a partir
daqui ate o final todo meu FEL esteja presente, então, vou falar de algo que me
dá náuseas...
Videira é linda! Uma cidadezinha no meio oeste de Santa
Catarina, mas infelizmente foi colonizada por italianos e quem não é mezenga e
nem berdinazzi é sub-raça, é brasileiro ( ser brasileiro aqui é sub raça ). Como
meu pedigree é vira-lata, sou sub raça aqui.
Tenho uma avó italiana Cristina
Botini, um Avô português, outro espanhol, uma bisavó alemã, e quem sabe alguém
colocou seu pezinho na senzala e foi muito feliz.
Há um misto de raça na
minha família que não sei definir, ou seja defino sim, sou vira-lata mesmo.
Minha pele é branca, com olhos ligeiramente verdes. Minha mãe tem os olhos
cinza-azulado e minha irmã também. Mas, para o povinho abestado daqui, eu sou
sub-raça. Ou seja, como sou branca até que aceitam com certa reserva.
Houve
um dia que minha irmã encontrou uma velha conhecida, descendente de quinta
mesmo, ou mais gerações de italianos e disse a ela:
- Apesar de tua mãe ser
"brasileira" eu gostava dela.
Fico com nó na garganta de tanto nojo que sinto
do preconceito.
Essa senhora nasceu aqui, sim, aqui em Videira, no estado de
Santa Catarina e no BRASIL....
Que diabos tem esse povo de se acharem
superiores? Que diabos tem esse povinho de se achar uma raça especial? São
ruins, e sei do que falo, são perversos, gananciosos, e se puderem arrancar os
olhos de um irmão. Arrancam só para ficar com a herança dos pais. Já vi tantos
horrores cometidos pela tal raça especial que tenho nojo de lembrar.
Aqui
muitos irmãos não dão nada que sobra, é na base da troca...ou venda. Como se
fossem ficar miseráveis dando o excedente. Os melhores anos da minha vida vivi
em São Paulo, longe do preconceito.
Lembro-me de uma parenta do meu ex
marido, qual eu gostava muito dela. No seu leito de morte, dentro do hospital,
quando entrei no quarto, havia dois dos seus filhos um em cada lado da cama
brigando pela aliança de casamento da mãe. Ela desacordada, ainda estava viva,
ainda consciente e eles se comendo vivos pela ganância. Pedi que eles saíssem do
quarto, segurei a mão dela e perguntei se ela sentia dores, ela apertou minha
mão...ela estava ouvindo os absurdos dos filhos. Pedi se ela queria que rezasse
com ela. Novamente apertou minha mão, rezamos juntas, ela em silêncio e eu em
voz alta.
Lembro-me também que quando fiquei noiva, a família do noivo fez
uma reunião para impedir que ele se casasse comigo, pois eu iria sujar o nome da
família, sendo que sou brasileira, aquela sub-raça... e minha mãe era espirita.
Dois agravantes. Foi uma pena eu ter descoberto somente depois que me casei da
tal reunião. O que me dói é ver nos domingos os "italianos" não perderem uma
missa. Que diabos faz na igreja esse bando de sujos de alma? Será que pedem
perdão para Deus na hora da missa? Pois, na porta da igreja, na saída já estão
cometendo os piores absurdos.
Quando retornei para Videira, ao lado de minha
casa havia uma viúva, uma das mulheres mais perversas que já vi em toda minha
vida, racista, claro italianissima nascida no Brasil (não fosse podre seria
cômico)...certo dia ela falando de racismo e encheu a boca para dizer-se
italiana, então perguntei que cidade e estado da Itália ela havia nascido (
sabendo que é de umas dez gerações aqui)...ela ficou sem graça e disse-me que
ela nasceu aqui, então disse-lhe:
- Ué, mas acabou de cometer um crime
bárbaro, preconceito e com desprezo aquela pessoa e se diz italiana. Moça você
está na porta do inferno com este teu racismo sujo, se olhe bem no espelho e
tente ver que podre é tua alma, o diabo é italiano, está te esperando...
PQP
perco o rumo da vida com preconceito, sofri na escola, sofri na igreja, sofri
pra ficar noiva, sofri pra casar...
Pra mim gente dessa laia não me serve.
Pior é que na minha família ( eu, minha irmã e meu irmão) tivemos a
infelicidade de casarmos todos com os racistas, os italianos que nasceram no
Brasil.
O sogro de alguém que conheço, cada vez que ela ia na casa do noivo,
o sogro ficava com a bíblia nas mãos para defender-se da sub-raça.
Não
diferente o meu irmão quanto ao preconeito... Mas Deus é tão justo que coloca
lágrimas nos olhos dos racistas.
Somos e seremos os eternos brancos sem
raças, só porque que não somos mezengas e nem berdinazzi. Aqui, ser Ribeiro como
eu, Silva, Gonçalves, Oliveira, Pereira e outros assim, sub-raças mesmo.
Ah!
Se eu tiver a graça de voltar para este mundo mais uma vez, quero vir como
negra, cheirosa, faceira, alegre, com samba no pe e na face maravilhosas
gargalhadas e provocativa...
Acontece que fui morar em São Paulo, saí do
antro podre de alguns dos italianos racista e acreditando que em são Paulo,
outro meio, cidade grande, não sentiria na pele a burrice humana, (perdoe-me os
paulistanos do bem) senti sim, não por mim, senti pelos nordestinos... basta
assistir nos programas de domingo "voltando pra minha terra". Eu senti na pele
duas vezes o preconceito.
Então, de coração me tornei uma nordestina que
nasceu em Santa Catarina...amei cada nordestino que conheci, aprendi tanto com
eles. Eles são amorosos, amigos de verdade, sem falcidade.
Umas das coisas
que mais me irritava era ouvir quando algo errado era cometido:
- È coisa de
baiano! OU - Mó baiano isso!
Senti na pele um povo lindo ser maltratado só
por que são nordestinos. Amarguei um fel na boca ver pessoas trajando seus
ternos e humilharem os nordestinos. Eu vi! Ninguém me contou, eu morei lá.
Tornei-me uma nordestina de alma e coração, afinal era forasteira la como
eles.
Então me pergunto, ou pergunto para quem queira me responder
- Onde
sou ou somos melhores? Onde alguém pode ser melhor que eu ou você?
Se eu
comer feijão, arroz e ovo frito e os bons também, ao sentarem no trono suas
fezes serão perfumadas, com cheiro de perfume francês? Perdoe-me o termo, mas
quando vou cagar, fede e muito, e os bons e racistas não fedem???
Sou um
ser normal, tenho minhas crises de ira sim, e falar de racismo fico com o
estômago embrulhado, tamanho nojo que tenho dos tais seres superiores, os
racistas.
Hitler era alemão (austriaco?), branco feito bicho de goiaba e foi
o maior assassino da humanidade. Mussolini, outro assassino, ditador italiano,
aliando-se á Alemanha nazista, formando assim o eixo Roma-Berlin e caçaram os
judeus (onde Mussolini criou leis contra os judeus) com sede de sangue.
Hoje, mais modernos há os ditadores assassinos... A diferença somente de
eras, armas nucleares, num mundo globalizado não há a era da espada, e hoje é a
era da caneta de ouro. A era da guerra viral, enfim.
Há também alguns
médicos racistas, que deixam seres humanos morrerem pela falta de ética e
respeito para com seu juramento. Não me refiro a cor da pele e nem descendência
neste caso, refiro ao poder aquisitivo mesmo...Se tenho dinheiro curam câncer, e
outras mais doenças, se não tenho aprodreço em vida ate a morte.
Como disse,
hoje minhas andanças tem fel do inicio ao fim, pois não suporto a crueldade
humana, a falta de amor ao próximo, falta de respeito e solidariedade para com
nossos irmãos.
Diante dos olhos de Deus somos iguais, para Deus não temos
cor de pele, nem posição social, ter fé e caridade é tudo de bom. Ter nossas
almas livres dessas barbáries que sofri na pele.
Mas, os bons...certamente
sopitarão nos braços do demônio e o calor que receberão são as chamas do
inferno.
O que me conforta um pouco é crer que aqui se faz e aqui se
paga...o inferno é aqui mesmo e de alguma forma esses seres perversos terão em
seus dias de vida o que merecem, por humilharem seres que podem um dia ser seu
socorro. Vivem num mundo umbroso e não elvolui espiritualmente, não há bondade,
se acham superiores.
De tudo, o que me conforta mesmo e retornando para
Videira, foi sentir que as novas gerações são mais leves e livres desses
preconceitos todos. São jovens mais polidos e mais humanos, estão ficando longe
do bolor de seus avós e pais, e estão criando um novo mundo e mais humano.
Quisera saber que em São Paulo, qual amo perdidamente, os jovens tivessem mais
respeito pelos nordestinos e que aprendessem com eles coisas maravilhosas que
aprendi em tantos anos de convívio, e que o coração do jovem paulistano fosse
como o meu, meu coração é nordestino...também é verde-amarelo, sou brasileira,
nasci aqui, pouco me importa de onde imigraram meus antepassados, o que importa
é que sou sim brasileira.
O amor é uma das maiores necessidades de nós seres
humanos, não estamos imunes de tragédias e não sabemos de onde e de quem será a
mão amiga para nosso socorro na hora que tombarmos.
Nasci no vale do Rio do
Peixe e passei minha juventude sendo perseguida pelos descendentes de italianos
que aqui viviam, fui embora e sentindo na pele a dor, revoltei ao sentir o que
os nordestinos também em São Paulo.
Ah meu Deus! Ah meu Deus! Que criaturas
são essas que podem humilhar seres humanos? Humilham somente para sentir na boca
suja o sabor de se sentir superior. Esquecendo de todas as coisas delicadas
criadas por Deus e enviadas para TODOS OS SERES HUMANOS DA TERRA.
Passei
anos escondendo meu sobrenome, e quando dizia tinha receio da reação dos seres
superiores. Hoje, eu digo de boca bem aberta, eu sou RIBEIRO com muito orgulho.
E meu Ribeiro quando digo é um som agradável e estou livre dos medos e da
insegurança que já senti nesta terra. Vou lutar com unhas e dentes enquanto
viver para que todos sejam respeitados pelas suas raças, suas digitais, crenças
e tudo mais que diga respeito a vida de cada um ser de bem, que seja um ato de
liberdade.
É uma vergonha ter que se criar uma lei para que haja respeito
com a raça negra, lei do racismo. A lei deveria ser criada dentro de cada
família, e os pais que fossem formadores de filhos com caráter e respeito por
todos indistintamente. O que deveria prevalecer é a lei do respeito e o curso da
vida fosse viver em paz.
Ajustar a uma nova mentalidade aqueles velhos
racistas é impossível, mas pode-se ajustar os jovens para uma nova vida e sem
preconceitos. Nunca saberemos do nosso amanhã.
Que sejam enterrados para
sempre os antepassados e seus ranços. Que seja plantado no coração das novas
gerações a flor da paz e de respeito. Que fique em nossa memória que a vida é
passageira e que iremos morrer cedo ou tarde e onde nossa alma habitará, só
saberemos mediante nossas atitudes. Que todas as máscaras sejam retiradas e de
cara limpa possamos abrir a janela da vida e olhar nossos semelhantes como
irmãos. Que não haja piedade, mas que haja amor nos corações. Não desperdicem
seu tempo com coisas pequenas como o preconceito. Devemos permitir que a luz de
Deus entre em nossas almas e a escuridão seja eliminada para sempre.
Nas
minhas andanças, meu diario, hoje estou num lamento ardido falando das coisas
que senti na pele, uma das piores coisas cometidas que é o preconceito.
Repousarei minha alma e meu coração na palma da mão de Deus, sabendo que
ninguém mais pode me ferir como já feriram e alertando meus irmãos que sofrem
qualquer preconceito, que gritem, berrem, briguem, mas não permitam que seres
podres os humilhem como já me humilharam, tanto a mim quanto aos meus dois
irmãos e meus pais. Mandem para o inferno os tais superiores racistas e sejam
felizes como aprendi ser. É tempo de ser feliz e serei sempre feliz, pois
ninguém nunca mais vai pisar na minha dignidade como já pisaram um
dia.
Perdoe-me as palavras grosseiras que ditei aqui meu diário, mas coisas
assim me tiram da normalidade e despejo, ou vomito toda minha ira contra os
racistas e preconceituosos.
OBSERVAÇÃO: NÃO ME REFIRO AO POVO INTEIRO DUMA
CIDADE, MAS SIM OS RACISTA QUE ME CAUSARAM NOJO PELO QUE SOFRI E PELO
PRECONCEITO... HÁ MUITA GENTE LEGAL QUE PASSOU PELA MINHA VIDA E AINDA MORAM
AQUI.
Marillena Salete Ribeiro
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pela Lei Brasileira nº 9.610,de 1998, por leis e tratados internacionais.
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