20130324




Meu grito

Marillena Salete Ribeiro

Vou deixar claro...
Sou aquela mulher que acham
forte, rocha, tronco e ferro
Com esta aparência forte todos pensam
que posso ser espancada e ferida
Que agüento tudo sem me ferir

Meu grito hoje é ardido e sofrido
Estou aqui para gritar ou berrar
Sou frágil, sou gente, sou de carne e osso
Por todos faço tudo, ate o que não posso
Me respeitem, por favor!
Tratem-me como gente, mereço!
Tenho o direito de errar e acertar
Cair, tombar e levantar
Cansei de ser escora, âncora
Enxerguem minhas lágrimas
Sou aquela que seca lágrimas de todos
e quando meu pranto cai...estou só
Pois, sou forte, rocha, tronco e ferro

Sou humana sim, cansei, cansei!
Me deixem na escuridão por ora
Antes que a dor bata mais forte
E ascos da vida na minha cara arrote
Agora, preciso minha vida rever
Quero comigo sozinha ficar
Quero sentir a mágoa, chorar, 
lamentar, uivar, berrar e gritar
Quero odiar, xingar e espernear
Quero ser negligente, fraca
covarde, vadia e preguiçosa
Esta cruz não aguento mais carregar

Se alguém conseguir me olhar
Verá como sou, enxergar-me-á
Saiba, estou gritando que
não sou, nunca fui e jamais seres
Forte, rocha, tronco e ferro
Esqueça que um dia me viu assim
Preciso ser fênix agora
Das cinzas renascer e recomeçar
do jeito que só eu posso ser

Cansada de ouvir:
"Você é a mais forte, corajosa "
Nem posso meus dentes ranger
Nada e ninguém para me proteger
Ninguém se importa com minhas dores
Vago sozinha na vida pelos corredores
Vou arrancar a unha e dente
esta minha face dura e forte
Meus retratos todos queimarei
Na minha sombra pisotearei

Aqui é o meu inferno
Agora, quero o paraíso perdido
Abrirei minhas asas e voarei
Não me pergunte o trajeto, não sei
Sei apenas que, sempre me encolhi
Essa fortaleza que sou, cansei

Quero o toque macio da vida e do destino
Não me anularei para não magoar
Enquanto pisam nos meus sentimentos
Tudo que aprendi foi: 
Não guarde mágoa, perdoe sempre, 
Seja sempre boa e compreenda
E enquanto boa, compreensiva
caí e na mágoa dos outros me atolei,
No abuso de muitos tropecei
Fui ferida, ofendida e traída

Rasgo a vida ao meio e grito
Deixem-me em paz, por favor!
Me deixem do meu jeito viver
Quero escolher minha estrada
Estou sufocada e profundamente triste,
sempre fui eu, a que sempre socorre,
 a escora e nunca estão satisfeitos, felizes
tudo porque  querem que seja sempre
Forte, rocha, tronco e ferro

Antes deste dia acabar
Vou mudar o rumo da prosa comigo
Vou me doar para quem me respeitar
 como gente, humana e imperfeita
E quem não me entender
que pegue sua mochila e vá se...

Mil vezes morri e sozinha ressuscitei
Chorei e sozinha o fel da vida engoli
assim, expelindo todo fel engolido
Preciso como gente normal viver
E nem de mim quero me esconder
Temo que para ser normal
precise ser falsa, hipócrita e cretina
Se assim for estou fora, sozinha ficarei

Os meus sonhos sabem, sentem 
onde termina minha estrada
Vou afrouxar o cinto da vida
sabendo que não sou, não serei mais
Forte, rocha, tronco e ferro

Antes que eu perca meu sentido
Estou mudando para sempre
Aqui jaz uma boazinha idiota
E há de renascer uma nova mulher
serena, tranquila, normal
Porém... 
Forte, rocha, tronco e ferro
Para todos baterem e abusarem
Nunca mais! Nunca mais!

Videira-Santa Catarina

Este texto encontra-se protegido pela Lei Brasileira nº 9.610,de 1998, por 
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